HOMICIDA I

conheci uma pessoa que era quase igual a um espantalho
e de tanto não falar, enganou-se, e matou uma flor
ZLC
06-IX-2016

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

O actor acende a boca. Depois os cabelos.

foto de Alfredo CunhaO actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor pôe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas –
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.

POEMACTO III. Herberto Helder. POESIA COMPLETA.

1 Comentário

Filed under DA MINHA CABEÇA PARA O TEU OUVIDO, Herberto Hélder

dona aduzinda // …PANELA AO LUME… //

Eu também sou amiga dos teus primos, mas eles  só me aparecem cá pra’ comer! Valha-me Deus! Sabes o que vou fazer de comer para o jantar? Umas migas! Comprei uma broa à tarde e até disse à tua mãe: Queres? Mas ela não quis. Ir à Festa do Avante? Isso é muito barulho e estou a ficar mouca… A cabeça agora dói-me. Pra’ semana vou outra vez ao São Bentinho. Prometi que se o teu irmão arranjasse emprego eu ia lá. Eu no mês passado até acendi uma velinha.  Mas queres saber da melhor? Não é que agora os patrões não lhe pagam? Anda o mocinho a levar o computador e a trabalhar num armazém e ainda não lhe deram nenhum. Nem pra’ o comer!  Isto agora anda tudo uma gatunagem. Os patrões são piores do que antes do 25 de Abril. O teu tio já disse que um dia vai lá e pega fogo a tudo.  Eu já lhe disse:  Ó Prudêncio, tu tem cuidado que ainda me morres queimado! Sabes que o teu tio é meio atravessado. Mas ele não deve meter-se a botar fogo. Aquele quando era catraio mijava-se todo com um fósforo. Olha, vou desligar que tenho a panela ao lume…

Deixe um comentário

Filed under Dona Aduzinda

A ÁRVORE PARIU O HOMEM

solo_para_multidao

Foto de Cátia Sá

meu nome? já não tem identidade? E se quiser te olhar nos olhos um dia desses… como te chamo?

«Ele costuma estar a fazer ginástica aqui nos outros dias. Eu e o meu marido temo-lo visto por aqui e ele veste aquele fato para não se magoar»

Homem-Pedra. Homem-Chão. Começar por mergulhar no chão. Deixar o chão entrar no corpo até virar um Corpo-Chão: pedra, areias, terra, folhas, alcatrão, buracos. Ter todo esse chão-mundo no corpo. Por ordem decrescente. Do mundo até ao chão: buracos, alcatrão, folhas, terra, areias, pedra. Ir do chão-mundo para a cidade. Deixar a cidade entrar no corpo. Ser um Corpo-Cidade até já não ter identidade. Do chão até à cidade procurar a forma sem querer encontrar. Corpo-árvore. Corpo-ramo. Corpo-folha.

– Que corpo há entre o ser-árvore e o ser-animal? Que não-corpo há entre os dois que seja movimento?

Esconder a cabeça para encontrar a raiz. Virar Corpo-tronco com a cabeça no chão.

– O corpo é mais livre quando deita a cabeça no colo da Terra? Somos mais livres quando encontramos as raízes?

Descobrir o som do Corpo-Terra. Entrar na árvore para encontrar o pulsar da Terra. Esconder a cidade dentro. Beber das sombras. Enrolar. Ficar mais pequeno sem encolher. Desaparecer para aparecer e ser o princípio. Sair em nascer. Ter o céu da cidade nos poros da pele. Atar o cordão umbilical à Mãe: Homem-Natureza. Lamber a Terra com os dedos. Ter o pulsar da Terra nos olhos.

meu nome? já não tem identidade? E se quiser te olhar nos olhos um dia desses… como te chamo?

– Asa de Folha de Árvore.
a partir de solo para uma multidão de Lyncoln Diniz
Foto de Cátia Sá

Deixe um comentário

Filed under Artigos

…da minha cabeça para o teu ouvido…#23.09.2014

"A CASA DE RAMALLAH",  de Antonio Tarantino. Artistas Unidos

“A CASA DE RAMALLAH”, de Antonio Tarantino. Artistas Unidos

MIRYAM: Quando uma pessoa explode o corpo divide-se num milhão, em mil milhões de fragmentos cada um dos quais, por uma lei física, conserva as qualidades do todo: ouvido, vista, etc. e a faculdade de pensar, de falar, de inferir, em suma, em mil milhões de testemunhas do acto da criação, da explosão original, da qual tudo teve início. Por outra lei do universo muito conhecida, o espaço celeste curva-se na presença de um astro e de uma grande massa. Mas, como o espaço e o tempo são a mesma coisa, eis que também o tempo se curva de forma a que passado e futuro se reúnam num único círculo de fogo. Eu, que já não sou mais do que mil milhões de biliões de partículas que vagueiam, alimentando-se eternamente deste fogo, vejo tudo e tudo posso contar: que deus não existe, que paz e guerra estão destinadas a perseguir-se no círculo ardente do tempo, como se perseguem o amor e ódio, saúde e doença, dia e noite, sol e chuva, pais e filhos, nós e eles, a história deles e a nossa, e ninguém está completamente certo, nem completamente errado.
Mas o vosso destino – vocês que dormem abraçados num compartimento do inter-regional que durante a noite atravessa a planície de Thamma – é ficarem ligados à vossa causa e o destino dos outros é ficarem ligados à sua própria causa. Beijos, Miryam.

in A CASA DE RAMALLAH de Antonio Tarantino

Deixe um comentário

Filed under DA MINHA CABEÇA PARA O TEU OUVIDO

…da minha cabeça para o teu ouvido…#02.08.2014

saramago

“…que a dignidade não tem preço, que uma pessoa começa por ceder nas pequenas coisas e acaba por perder todo o sentido da vida.”

in Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

# 90º #

…o rapaz N fica igual ao rapaz Z quando se deita para um dos lados.
…o rapaz Z também.
…os dois são iguais sempre que estão em maiúsculas, embora o tamanho da cabeça e dos pés do rapaz Z seja diferente.
…o rapaz N  tem os traços com o mesmo tamanho, quer ao deitar, quer ao levantar. 

Deixe um comentário

Filed under poesia nas luas